segunda-feira, 8 de outubro de 2007

"Friends in the twilight"

Friends in the twilight. For Fil, Zé, Joana, Tânia e David.

For Fil, Zé, Joana, Tânia e David.




Original picture by Tânia, Sines 07.

Green thoughts

I see the world and it should be green.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Livre de tudo.

Destinado a evitar conflictos pessoais, chegando até a ser bastante incómodo ao tentar precisamente evitá-los, Ciza encontrou-se perante um pedinte esquivo e pouco confuso. Lançando-lhe um sorriso feio, mas que espelhava uma alma satisfeita, o velho alegre procurou respeitar o olhar invejoso de Ciza, que contemplava a felicidade de liberdade total. Claro que alguém como Ciza, que delimitava o seu espaço e o seu tempo segundo ordens específicas e invioláveis, dedicava pouco tempo a contemplações deste género.
Descendo a rua, Ciza orientava o seu olhar, sempre rápido e assustado, escolhendo o melhor percurso a tomar, reparando no homem soturno que sentava-se no passeio, de charuto apagado na boca, e na mulher que berrava aos filhos por chegarem demasiado cedo a casa depois de um dia de pequenos e médios assaltos, desviou os pés das manchas negras do habitat urbano. Que o seu corpo se tripartia numa coordenação angélica entre os pés, os olhos, e o cérebro, era colocar-lhe um rótulo. Para Ciza era um exercício que exigia um esforço físico inchado, ao ponto de as suas funções se tornarem automatizadas. Isto era, para Ciza, tanto uma maldição como uma benção.
Muitos foram os caminhos que os seus pés e olhos percorreram, variando consoante a disposição dos intervenientes. Tinha medo da rua, dos inconstantes e dos constantes, sentia todas as manobras, olhares, pensamentos, buzinões, gritos, sorrisos, e os dedos que lhe apontavam eram como as cordas que, pensando estando nas mãos, permitindo nadar com os membros inferiores para não se afogar, afinal estão nos pés, como num pesadelo. Tudo lhe sufocava.
As beatas juntavam-se entre o meio-dia e as duas da tarde na esquina na rua ao fundo da grande avenida que Ciza percorria todos os dias, e estivera previamente a submeter-se a mais doses diárias de humilhação por parte dos míudos e das prostitutas da rua acima. Ciza respirava, a cada momento destes que passava, como se nadasse à tona e respirasse até aos seus pulmões, secos de ar, rebentassem. Ele evitava tudo e todos, mas as inspirações fortes e repetidas causadas pelo fluxo excessivo de oxigénio dava-lhe calafrios e tonturas. De joelhos sobre a calçada do passeio, a virtude de homem que evitou todos os mal-entendidos, críticas, humilhações e desentendimentos estendeu-se ao comprido, e Ciza respirou fundo, não como um homem que estava prestes a afogar-se, mas como alguém que deixa tudo para trás, na mesma, como devia de ser, e sempre será, por mais que se evite mudar ou manter igual.
Os paramédicos que socorreram Ciza depressa se aperceberam que estavam perante uma alma perdida e um cadáver pequeno e contorcido, e não conseguiram consentir sobre uma altura em que, no passado, tivessem testemunhado um caso com este. Nunca se tinham deparado com um morto a sorrir.

Tomás J. A. Pinto

Defesas congénitas, nascidas da mente "matinas".

Nada nos assusta tanto como nós próprios, ou nós próprios distorcidos e tranfigurados. Mas o medo provém de situações em que sabemos que alguma coisa trágicamente penetrante tem a remota possibilidade de intervir, negativamente e pedagógicamente, sobre nós. As variedades com que essa possibilidade ocorre define os diferentes estádios de alteração comportamental. O arrepio, o receio, o medo, o terror, o pânico, que evoluem maioritáriamente do perigo ou da mágoa, representam esses níveis. Quanto mais descobrimos sobre nós próprios, mais temeremos, e haverá sempre a coisa mais insignificantemente possível, e impossível, para nos guiar, avisar e restringir.
Tomás J. A. Pinto
Imagem:
"Ghost" by Katsushika Hokusai.

Fisionomia.

Uma aparência rude e negligênciada permite juizos que comportam juizos com valores com os quais se são ajuizados certas características. Um negligência pertinente no caso de uma rude, simples e vaga, pessoa, e os juizos são pararelamente colocados em prós e contras. Que juizo correcto fará o juiz sobre o juizo de uma aparência?

Mea Culpa: quando é de todos, de ninguém, e particularmente minha.

Dignificando a dormência televisiva, anseio pelo comando, apenas para me aperceber de que este não existe, e amolecem-me as expectativas fulcrais ao conforto milenar da placidez ignorante. Os olhos semi-abertos, a garganta seca e a pele óleosa, buscam fagulhas brevissímas, que contrastam com a luz e o fumo. Devagar, com a lentidão com que uma sombra se constroi quando as nuvens levantam e se separam para acompanhar uns momentos de sol, uma presença quase física desperta dentro das imediações da sala, com ruídos sinuosos e confusos, avisando-me de que qualquer coisa se deslocou, que qualquer coisa está fora do lugar. A minha mão pálida avança e treme perante a presença, uma sombra que assusta ao distorcer a forma. Mas o medo apenas atinge o pico, e transforma-se em terror irreal e insensato, ao reparar que a forma distorcida, a sombra distante e imponente, como uma montanha que até então mantivera-se coberta, é a minha.

Tomás J. A. Pinto

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Diálogo sobre as particularidades do sono.

“Os sonhos são para os loucos. Perde-se tempo e a vontade diminui com a idade.” afirma o homem de aspecto ingénuo e frágil.
“Estás a baluciar o quê? Diz lá. Os sonhos são para os loucos… ou são os loucos loucos por perseguirem sonhos?” avança o estranho de casaco escuro de gola alta.
“Diz-me tu!” diz o homenzinho.
“Não, não. Espirra essas tuas explicações para outro. Tu é que falaste nisso, tu é que explicas o teu comentário.”
“Pois… pois sim, tens razão.” Salpica o homenzinho, cada vez mais nervoso. “Então os sonhos são para os loucos. Afirmei-o há cerca de um instante. Pois que tipo de coisas se passaram na vida de um homem para quando o olho fecha e o cérebro dorme, se passarem tais eventos ridículos e insensatos?”
O homem sombrio, que manuseava qualquer coisa brilhante na mão esquerda, levanta a cabeça de modo a olhar directamente nos olhos do homem, retorquindo. “Pois, sabes, os sonhos vêm da união entre os mecanismos do cérebro e a nossa, ou nem sempre a nossa, experiência. São os restos que não conseguimos assimilar durante a nossa actividade que é depois verificada pelo cérebro, por assim dizer.”
“Então os sonhos são para todos? Todos somos loucos, inteligentes, velhos, novos, e a perseguição dos sonhos, quando se deseja, pode ser um coisa boa, mas apenas se for dentro do reino do possível. Se não é possível, então é mesmo para os loucos.” A voz do homem frágil e ingénuo tinha estado a subir gradualmente até à forma de um grito.
“Não, não meu coitado! Os sonhos são presenças metafísicas de eventos do subconsciente. E tratados no nosso cérebro.”
“Então não confias nalguma entrega divina? Na mensagem de algo superior através de algum mecanismo sobrenatural, de que nós somos os receptáculos? Pessoas como tu são especialmente abertas a perspectivas semelhantes.”
“Não. E não tentes pensar que sabes alguma coisa sobre mim. Acredito que o corpo funciona de maneira a aguentar a pressão que, obviamente, não conseguimos aguentar. Todos dormimos. E porquê? Para descansar, especialmente o cérebro, mas sem nunca o desligar.” disse o homem sombrio, ao olhá-lo de lado e acendendo um cigarro. Afasta o fumo com um sopro e endireita-se, como se fosse discursar.
“A meu ver, e digo a meu ver, porque neste momento o que interessa não é o resto do mundo, mas nós. Mais ninguém interessa porque é indiferente o que o resto da população humanóide (humana de uma forma ou outra) posso fazer para evitar o que se vai passar aqui, esta noite. A meu ver, os loucos são considerados loucos por terem a coragem de fazer o que for preciso para evitar sentirem-se descontentes, tristes, deprimidos, até ao ponto de passarem por animais assustados e ignorantes, por coitados. Mas apenas assemelha-se assim, porque a grandeza de saber um coisa e avançar sobre ela é muito mais certa do que uma vida de mentiras.”
“Não podemos ficar apenas contentes pelo que temos, pelo que amamos, pelo que sonhamos, e apenas sonhamos?” chora o homem frágil, decepcionado com o rumo que a conversa estava a tomar.
“Podemos. Mas se esse contentamento que falas reside apenas nos sonhos, e para obtermos essa alegria tivessemos que concretizar os nossos sonhos? Aí já não seriamos loucos, pois não?” sorriu maliciosamente o homem dominante da conversa.
“Vejo que não respondes, por isso continuo. Eu sou louco. Eu corro nos calcanhares de um sonho. Já o concretizei, concretizo-o hoje, e continuarei a concretizá-lo. Para o resto do mundo aparento ser igual, normal, seu semelhante. O resto do mundo não interessa. E tu, e o teu comentário, não interessam.”
O homem frágil encolheu-se perante o homem sombrio. O ritmo das passadas dele juntaram-se consonânticamente ao ranger das cordas que o homem frágil tentava soltar, mas que se tornava mais díficil com o nervosismo espasmático e o pânico.
“Não vale a pena” e cortou-lhe um traço ao longo do pescoço, enquanto olhava para os olhos da sua vítima.
“Agora já não sou louco. Mas contente, seguro, como o resto do mundo.”

quinta-feira, 19 de julho de 2007


De volta à escrita.
Pausa feita.
Em breve mais coisas para os olhos absorverem.
Continuação da procura. A busca continua.
Procura do quê, dizem?
A minha expressão, expressividade, mensagem, [and what not]
[...] T. J. A. P. thanks'a'lot!

Mensagem ao [...]

São-me conhecidas duas artes. A arte de viver e a arte de morrer. Entre as duas há outras artes, que registam como fazemos e trabalhamos com o que nos é dado e tirado. Quer aceitamo-las como parte de nós, quer como reflexo de outros, crescemos de seres pequenos, vivemos, e voltamos a ser seres pequenos, insignificantes para outros, mas grandes para nós próprios, e isso é que nos define e é o que interessa.
Venho da terra, e voltarei para a terra. E por enquanto estou contente. Preso no meio.
Tomás J. A. Pinto

Medo.

A vida passa-me à frente dos olhos sobre as formas de alquímia, a velha arte do desconhecido e das perguntas que permaneçem não-respondidas. Sentado à janela, os olhos correm-me pelas folhas, aquelas a que são oferecidas duas cores. Uma, verde gasto, para a parte de baixo, e outra, verde intenso, para a de cima. O vento mexe e remexe-as, e assim nunca duas folhas de diferentes ramos estão juntas por muito tempo, e nunca elas irão saber se estarão mais alguma vez.
Enquanto sento à janela, imaginando as amizades de folhas e a união de moléculas de CO2 e O2 provenientes do encontro entre tubos de escape e o ar na estrada, os carros que passam acordam o meu cérebro com ruídos raspantes, que o meu cerebro assimila em agonia e irritação. O borbulhar da água a ferver, que coze a massa que serve-me de jantar, avisa-me um regresso ao estado normal, definido por outros de outras patentes, capazes de conceber e comandar o desígnio do destino, a que inevitávelmente iremos parar.
Estou sozinho, e as distrações são os meus consolos. Não posso permitir-me sossego, senão as memórias e os ecos voltam e deixam-me sozinho, profundamente sentado à janela, mas as distrações são distantes e os ecos são maiores. Não posso permitir sossego, e o meu corpo pede inconstância.
O meu maior medo é o silêncio.
Dão-nos duas cores. Temos a superfície, e possuímos outro aspecto, outra face, submersa. Outra cor. Há quem diga que se pensarmos muito numa coisa, encontramo-la. Possuis a consciência e o poder de encontrar as tuas cores? Vejo seres que só têm uma, seja ela a submersa, seja ela a aparente. Mas as duas? São os loucos? Ou serão eles demasiado inteligentes que deixam-se ficar, contentes com o conhecimento que só eles possuiem porque mais nenhum de nós algum dia poderá sequer conceber a noção de algo? O que interessa é a coragem necessária para ultrapassar, misturar as cores. Mas isso não me interessa, porque o que procuro é manter o medo. Medo de encontrar-me verdadeiramente. Medo de magoar alguém, ninguém, todos. Medo de não conseguir separar as vontades e os desejos. O silêncio ajuda e obstrui. É a ferramenta de procura, afastando as distrações. Mas também é o obstáculo, o sossego, a calma do mar que permite regressar a terra.
Silêncio. O que é? A ausência de som? A ausência de seres? A ausência de fricção e percepção, de recepção? A ausência de consciência?
A ausência de vida?

Tomás J. A. Pinto

terça-feira, 12 de junho de 2007

Os restos.


Bem pessoal, está na hora de uma pausa. A época de exames têm um preço e as cefaleias abundam. Procurarei fazer mais ensaios e divagações assim que me sentir repousado. Ultimamente tenho colocado muitas experiências digitais de fotografia no blog. Isto porque "custa" menos e na brincadeira encontro muitas coisas valiosas. Também é bom fazer uma pausa e deixar as sensações e experiências tocarem os nervos.
Até breve, meus caros.
Tomás J. A. Pinto

grelhavanca.



Espiral

E então possuiu-me uma vontade, e uma noção de estar a subir. Não uma certeza, pois uma noção não equivale a uma certeza. Era mais como uma daquelas sensações em que não sei bem se estou a cair se estou a subir. O meu estômago palpita, a querer saltar-me do corpo e atravessar as minhas vísceras, num acto de vingança mereçida. Ele não pedia para estar ao saltos, mas para ser justo (e para mais logo não ficar acordado com a dúvida “será que ele estava a vingar-se?”), nem eu. Estou a subir, tenho a certeza.
Então indicam-me o caminho. Alguém de capuz, que claro não quer que lhe observe as feições desconcertantes de um monge mal-nutrido. Sabe que o vou criticar, o sábio. Hoje em dia ninguém precisa de passar fome (deve ser uma penitência ou voto sagrado). O caminho é uma escada espiralada de pedra, esguia e húmida. Tenho medo de escorregar e partir o fémur. Vertiginosa e mereçida diz-me o tal protegido que a vista é. Subo, subo, a escadaria húmida. Dizem que é especialmente prodigiosa a vista. Subo.
Nunca fui muito daqueles que aprecia vistas. Pelo menos não tanto como aprecio a viagem em si. Prefiro olhar para as escadas, e perguntar quem a construiu, e colocar-me nos pés e nas mãos de quem as fez, que na pequena esperança que tinha esperava por alguém que perguntasse quem fez a escadaria espiralada. Pobre coitado, a História não te registou o feito.
As janelas pequenas ao longo do caminho são batoteiras. Dão amostras da paisagem, da pintura elementar, e enganam quem sobe ao cimo. As amostras, quando as juntamos, dão-nos a obra, e sentimo-nos enganados no topo do mundo.
Falta pouco, diz-me o esfomeado. Fico a ouvi-lo salivar e vejo-lhe fraquejar. Vou-o criticar, ele sabe. Ninguém precisa de passar fome. O diabo mal se aguenta nas pernas magras, e as costas curvadas sobre o manto pesado são janelas de vislumbres batoteiros.
Falta pouco. Abro a porta que dá ao pátio da vista. As gotas de suor novamente arrepiam-me, saltando em saltos curtos pelas costas. Vejo a vista, mesmo diante de mim, e viro-me, sereno.
“Vai comer desgraçado”.

Tomás J. A. Pinto

O conto do caminho.

Era, certa vez, uma rapariga medonha que procurava sapos. Procurava espreme-los e lamber-lhes as costas. Fugia, pelo mato, para fugir ao lar, medonho abrigo de medonha gente. Fugia à procura de sapos, com galhos atordoados frenéticamente a tentar fugir ao cabelo enrolado, atado em nós.
Ao correr pelos arbustros, encontrou um caminho. Era uma coisa invulgar, fora do sítio. Curiosa com o facto de haver um caminho onde não havia caminhos, perguntou aos ventos e às folhas quem o tinha feito. Entrou a correr pelo caminho, a fugir da casa medonha. A sua natureza bruta anseiava pelas respostas, mas não esperava por elas. O sapo corria-lhe nas veias. As elevações do sangue azul nos pulsos assustava-a, mas continuava determinada em encontrar as respostas no fim do caminho.
Era um arrastão de terra que compunha a fresca via, que depressa serpenteava para dentro da densa floresta, que de galhos frenéticos procurava abraçar almas de sangue vivo, quente, activo. À medonha rapariga nenhuns galhos queriam tocar. Afastavam-se com o vento, que subia com a noite, em chuvas de folhas e sombras. As primeiras gotas da noite comunicavam-lhe pensamentos, e a rapariga começou a chorar, lentamente, contida, na esperança de que as lágrimas seriam apenas as primeiras gotas da noite. Não contendo os soluços e as lágrimas, gritou um grito ecoante, como se a floresta fosse uma clareira de ruínas ancestrais. “Porque é que ninguém me quer? Estou viva e quero fugir! Porque é que niguém me leva?” gritou entre os soluços. Era uma floresta antiga, cheia de vida e segredos.
Caída no chão, com a chuva a manchar-lhe o vestido rasgado, sentiu um tremor, crescente. A intensidade do tremor uniu-se ao batimento do seu coração. Viu que estava no fim do caminho, e um sapo gigantesco aproximava-se dela.
“O que se passa, rapariga medonha?” perguntou suavemente o sapo, a proteger-lhe da chuva com o enorme braço. “O que anseias?”
“Quero fugir” disse a rapariga, deitada no chão.
“E porque não foges?”
“Porque não consigo, e não há caminhos”.
Rindo-se calorosamente, o sapo viu o brilho que este causara nos olhos da rapariga medonha.
“Mas eu faço caminhos, e posso ir e vir quando quiser. Tu também podes. É só quereres.”
“Mas…”
“Tu tens poder, rapariga medonha, e podes fazer o teu próprio caminho.”
“Mas eu não sei fazer caminhos. Ensinas-me?”
“Não.”
“Porquê? Porque não me ensinas. É o que eu quero mais no mundo.”
“Raramente sabemos o que queremos. E tu vais ter que descobrir o teu próprio caminho, e o teu próprio poder.”
“Mas eu sou apenas uma rapariga medonha, de uma casa medonha de gente medonha numa floresta de segredos.”
O sapo, rindo-se novamente, retorquiu. “Eu sou um sapo, sou grande e medonho. Sou uma criatura feia por natureza. Não sou mais do que isso, e no entanto sou livre e feliz.”
A rapariga, compreendendo o que o sapo quis dizer, levantou-se calmamente, pôs-se de bicos de pés e beijou o sapo.
“O que vais fazer agora, rapariga medonha?” perguntou o sapo.
“Vou fugir.”

Tomás J. A. Pinto

testing. TESTING [from the floor to the door]


sexta-feira, 1 de junho de 2007

crowds


CROWDS
. HuMAn covering is own little significant quarter of dirt.

Set apart form the rest of the creatures.

Human. Human. Human. Human. Human. Human. Human. Human. Human; Human Kind(ness). H.S.




(do grego agora - mercado + phobos - medo)



Lab rat. Maze. Lab rat. Maze. Lab rat. Maze. Lab rat: Maze.

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ

Carnaval universal.

Sinto-me rodeado de pessoas. Talvez seja verdade, e as sombras carnavalescas que me rodeiam são estátuas vivas de carne, sem sentimento ou propósito, penduradas como carcaças de animais mortos, expostos no talho a uma terça-feira. Estão à espera que alguém os diga o que fazer, o que ser, quando respirar, e como. Apetece-me gritá-los. “Andem. Sejam, seus idiotas!”. Mas não consigo. As palavras não me saiem da boca. Não porque não queira. É que os meus lábios estão fechados sobre dentes serrados. Fui feito assim.

Um pombo senta-se no meu obro, e excrementa-o com os resíduos gástricos do seu pequeno almoço. Não haverá de ser a última vez.

A praça encontra-se menos agitada que o normal, mas as pessoas ainda não conseguiram largar o hábito dos passos altos e violentos. São tantas, e tantas. Eu permaneço, imóvel, rodeado de almas. Ocas, ocupadas, sãs, e nem por isso. O velho continua sentado no banco velho, olhos lacrimejados e vermelhos. Um mar de gente que não lhe lembra outros tempos. Os prédios, edifícios e fachadas são a sua companhia. Permaneçem. Permaneçem inalteradas. Uma breve vasculhadela à nostalgia pessoal e regressa à realidade. Um olhar permanente, leve e tedioso. A cara apoiada numa mão trémula, sem carne. Carne comida pelos dias. Antropofagia cruel. O que devia importar não resite, descartado.

Um rapaz olha o velho e pergunta-se se será assim, e eu verei a sua carne a ser comida pelos dias. Verei um rapaz a olhar para ele, a perguntar se será assim.

Eu permaneço e observo. Sou a testemunha imortal do plano inconstante. Das multidões. De onde as pessoas vão para existir, afirmar o seu grito presencial, e onde se sentem mais sozinhas, regressando com o velho sol a descer, numa luminosidade que gaba o seu lugar no universo. Central. Algo que eles não são.

Eu sou o sol do meu universo. Central. Eu sou a testemunha das multidões. Eu sou a estátua do meu universo. Sou a estátua de bronze decorativa. Permaneço, sem conseguir gritar de lábios fechados e dentes serrados de pombo ao ombro “Andem. Sejam, seus idiotas”.

Tomás J. A. Pinto

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Potencialidades imaginárias e definitivas.

Vasculho e percorro o meu corpo. A superfície de carne, pele e cabelos que protege o meu interior sagrado. O toque dos dedos percorre o braço ao encontro das extremidades nervosas do sentimento. Ásperas pinceladas de unhas na carne esplonteam vontades rigorosas de deformação, de poder. O meu corpo é meu, poderei fazer o que quero com ele? Somos definidos com a forma da nossa espécie, e nada mais. Concedem-nos forma inalterável e definitiva, o ser perfeito. A massa cinzenta do cérebro desdobra-se no potencial dominador de poder. O poder humano. O poder sobre os outros. Mas sobre os nossos corpos? Alvos de atentados vivênciais deformam e destroíem, externos à vontade individual. Quero crescer um braço no meu braço, estabelecer funcionalidade. Mas não posso. Eu sou como sou, e se não fosse seria atacado pelos outros individuos. Ser diferente hoje é ser igual amanhã. Quero formar a minha pessoa, e por dentro podemos ser o que quisermos, ninguém nos impede. Ninguém manda no pensamento, o progresso interno sacramente protegido. Quero ser perfeito. Por fora, aceito o que sou. Não altero o percurso do que me define. Sou humano, na vasta potencialidade que promete o afastamento do que é ser humano. Avançamos na distância. Ser humano é não ser humano. Poderá ser que um dia sejamos o nosso potencial máximo, o nosso ideal. O meu ideal.

Tomás J. A. Pinto

As realidades de perigo e do fim das vidas.

Numa tal manhã de singular beleza, a chuva fazia pouco mais que molhar a gola do enrugado casaco. Ao escorrer as arrepiantes gotas frias pelas costas, Samuel era cruelmente relembrado de que era segunda-feira. Encolhendo os ombros agitou-se para afastar os arrepios e a má disposição, que o belo dia não deixava de o lembrar através do reflexo dos vidros dos prédios. Montanhas e montanhas de metal. Homens e mulheres que funcionam uns como peças, outros como óleo, impedindo que a máquina industrial aqueça demasiado ao ponto de fundir as peças, numa confusão resultante de uma má gestão de recursos.
Indubitávelmente, o elevador subia lentamente. Os espíritos de Samuel não. Outro dia de esforço adverso, cortes de papel e olhos avermelhados.
Passados dois minutos sentado à secretária, a secretária levantou-se e derrubou Samuel para o chão.
- “Que pensa que está a fazer? Agora é sempre a mesma coisa não? Olhe que posso acusá-lo de assédio sexual!” – gritou a secretária, enquanto ajustava os óculos e o decote.
Samuel pensou que a brincadeira não funcionou lá muito bem. Uma tentativa de alegrar o ambiente da sua cabeça aborrecida pelo cinzento das paredes. “O decote é só para o chefe” pensou Samuel, levantando-se.
Passados cinco minutos à secretária, os papeis já vinham em camiões, empilhandos em grupos desorganizados em cima dos papeis deixados na sexta-feira. Lapso prepositado, visando uma fuga repentina dos últimos quinze minutos da semana.
Tentando navegar pelas hordas inimigas, os batalhões de papel, Samuel sentiu uma picada leve e penetrante. A sua derme levantou, espirrou e começava a arder num fogo de mato que surgira espontâneamente. Sentindo o ardor do corpo, tanto dentro como fora, provocando alterações hormonais do seu estado humano, olhou maníacamente em todos os lados, num ar de desentendimento, medo e confusão. Receoso do seu destino, procurou infernalmente o bicho infernal que o picara. Desarrumando a sua secretária, assustava os seus colegas. Encontrou o maldito esmagado debaixo de uma pilha de árvores abatidas, transformadas em papeis.
“Maldição! Que raio de coisa é esta?” pensou Samuel furiosamente ao pegar pelas asas o insecto amaldiçoado. O ardor já lhe causava tremores nas mãos, e a visão turvara-se ao encontro da sua sanidade e bem-estar. Agora apenas queria trabalhar, criar, assinar formulários e picar o ponto do seu cartão empresarial. Mas não conseguiu. As imagens avulsadas de pesadelos e receios empilhavam-se na sua mente, e o seu ritmo cardíaco subiu, em esmagadores pulsações que jorravam espasmáticamente pelos seus músculos e orgãos. As picadas infernais de sangue mal distribuído eram demais para a sua força de vontade. Queria era trabalhar. Estar bem, no seu cantinho, com o seu salário ao fim do mês. A sua mente já previa dores e problemas financeiros. “Mas o que é isto Deus!” gritou, correndo aos zigue-zagues pelo escritório, empurrando os colegas, como alguém debaixo de água que está com extrema falta de ar.
Chegou ao telhado, a um terraço aberto decorado com antenas, cabos e parabólicas. Um sanctuário metálico, as raízes que bebem na dependência automatizada do Homem. Samuel pôde constantar que realmente era um dia bonito, a visão era bela e o vento era precioso, batendo-lhe na cara, acalmando-o ligeiramente, se bem que o seu sangue continuava a escorrer pelo interior do seu corpo como ácido. Conseguiu apoiar-se no gradeamento lateral, ouvindo os pombos e o barulho dos carros, que enchiam os pulmões de veneno lento. Samuel acalmou-se. Respirou fundo. Não conseguia concentrar-se no que estava a acontecer, o que estava à sua volta, a mexer-se em distorções alheias e misteriosas. Apenas sentia a cara esfriada pelo vento, embora o resto do seu corpo ardesse num fogo interno, e em espásmos tão fortes que partiam-lhe as costelas. Respirando fundo, Samuel pensou que podia ser que este castigo animalesco fosse só um aviso, que lhe daria o tempo suficiente, uma oportunidade, para se curar. A sua vida iria correr bem. Não desperdiçaria os momentos. Seria o modelo genial da humanidade, em todo o seu esplendor. E enchendo os pulmões do ar que subia da estrada, e com o vento na cara esperançada, rebentou numa nuvem de carne, osso e sangue, pingando o gradeamento e as lajes do terraço, o belo dia manchado de sangue nos vidros do prédio.
Tomás J. A. Pinto

sexta-feira, 11 de maio de 2007